T E X T O S
" Quando falo com os pais sobre a dislexia, utilizo somente a seguinte analogia: a dislexia é como un estranho animal,algo assim como um elefante. Se a agarramos pela trompa paratentar adivinhar o que é, a imagem que se forma em nossa mente é muito diferente daquela que se formaria se tivéssemos agarrado-o pela pata ou por uma orelha. Para construir a imagem completa deste "animal"chamado dislexia é  importante adotar um critério mais amplo que inclua todas as causas identificadas pelas diferentes investigações."
Harry T. Chasty, B.Sc, M.Sc (Psicología), Ph.D, F.R.S.A.
Asesor en Capacidades y Trastornos del prendizaje

As desventuras de uma criança disléxica

Este artigo foi escrito por Gisèle Plantier e encontra-se no livro "A reeducação da criança disléxica"
de Bárbara Pinto Rocha, publicado pela Escher Editora, Lisboa, 1991.

"Era uma vez ... É assim que começam as histórias que me contava a minha avó quando eu era pequena. Já não acredito em fadas e contudo, quero começar a história do pequeno Gifies por: «Era uma vez». Porque no nosso mundo moderno, certas crianças são vítimas de uma invisível fada má, que os acompanha nos bancos da escola. A nossa fada má sem rosto, que possui o terrível poder de transformar em cancro uma criança inteligente chama-se «Dislexia».
Gilles é o meu filho. Tem hoje 23 anos. Creio, pois, ter vivências suficientes para contar a história dos seus jovens anos. Porquê? Simplesmente para evitar talvez a outras crianças de conhecer, como ele, numa idade que deveria ser de despreocupação e de alegria de viver, angústias que perturbem o seu sono.
Eu tive a grande vantagem de estar disponível e de poder consagrar muito tempo à reeducação do meu filho. Ao longo destes anos, vi-o viver e lutar. Dividi com ele as suas alegrias e tristezas, os seus insucessos e sucessos.

Era uma vez uma família feliz. Tínhamos decidido de comum acordo aproveitar de uma descentralização parcial da sociedade onde trabalhava o marido para deixar a região parisiense e vir para a Aquitânia. É nesta altura que eu conduzo Gilles e Michel à pequena escola da aldeia para os
inscrever. A professora acolheu-nos amavelmente. Examinou os meus filhos por detrás dos seus óculos de míope e perguntou-lhes se eram bons alunos. Michel respondeu prontamente que sabia pintar, fazer recortes, colagens e recitar poemas. Gilles baixou a cabeça sem responder e devo admitir que ele não tinha feito uma boa instrução primária. Prometi fazê-lo ler todos os dias para tentar preencher as suas lacunas. Comecei as secções de leitura a partir da 2ª feira seguinte. Tinham lugar no jardim às 9 horas, depois do pequeno almoço, a fim de que Gilles aproveitasse completamente o resto do seu tempo para jogar. Lia lentamente, com voz monocórdica, hesitante,
entrecortada. Enganava-se muitas vezes e era inquietante passado um ano sobre a instrução primária. 0 dia da abertura das aulas chegou.
Não foi preciso muito tempo para compreender que Gilles não progredia. Via muitas vezes Mme. Didier, a sua professora que punha um ar catastrófico para me falar do trabalho do meu filho. Era um zero em ortografia, um zero a cálculo, não acabava nunca o seu trabalho e tinha um caderno sujo. Em contrapartida, oralmente, era um aluno vivo que compreendia bem as lições. O seu aproveitamento era fraco e eu estava desolada e temia os dias das informações porque se Gilles era invariavelmente a lanterna vermelha da classe, Michel era a locomotiva da sua.
Recordo-me do dia em que ele chegou correndo para me anunciar triunfalmente: «Mãe, desta vez eu não sou o último!». Em nove ele era o sétimo... porque dois colegas não tinham sido classificados.
Gilles era uma criança humilhada em casa pela presença do seu irmão sempre o primeiro, humilhado igualmente na aula porque era o último, troçavam dele.
0 meu marido estava perplexo. Este filho representava para ele um enigma. Mostrava-se muitas vezes mais astucioso que os rapazes da sua idade para resolver os pequeno problemas da vida prática. Então, como explicar esta espécie de cortina que parecia cair diante dele logo que se tratava do trabalho escolar? Fizemos-lhe exames à vista, ao ouvido. Os médicos observaram-no dos pés à cabeça. Estava de perfeita saúde e nada o impedia teoricamente de trabalhar correctamente na classe.
No fim do ano escolar, telefonei para o Centro Médico Psico Pedagógico de Bordéus para marcar um teste para o meu filho.
Estávamos, meu Deus, em 1964 e não testavam crianças antes da entrada na 6º ano. Enquanto aguardávamos, seria preciso ainda fazê-lo trabalhar durante as férias. Durante um mês, essas secções de trabalho punham os nossos nervos à prova. Num dia ocupava-me da leitura, da gramática ou dos ditados, e no dia seguinte o meu marido encarregava-se do cálculo e dos problemas. Aprendia a conjugar os verbos nos tempos simples, fazia exercícios de gramática, copiava palavras de uso corrente. Mas logo que ele encontrava estes mesmos verbos nos tempos estudados, estas mesmas palavras, estes mesmos adjectivos no ditado, tudo isto se transformava numa espécie de escrita fonética onde faltavam letras, palavras inteiras tinham sido escamoteadas, sendo algumas totalmente incompreensíveis.
0 meu marido apercebeu-se que Gilles começava as operações tanto pela direita como pela esquerda e que somava aonde era preciso subtrair e vice-versa. E o mais surpreendente é que ele chegava a transcrever alguns algarismos ao contrário.
Dava-me conta que tudo ia demasiado depressa para ele na classe. Um fosso cada vez maior o separa dos outros colegas.
É então, que uma bem-aventurada crise de apendicite dá origem ao fim das nossas incertezas.
0 cirurgião que o operou era um jovem professor do hospital das crianças e eu fui bem inspirada ao
confiar-lhe o que era para nós um verdadeiro tormento. Aconselhou-me a consultar uma das irmãs neuropsiquiatra de crianças. Fui agradavelmente surpreendida pela doçura que emanava desta jovem mulher logo que nos abriu a porta. Tomou conhecimento do caso através dos elementos que a professora de Gilles redigiu a seu pedido e ficou perplexa. Olhou-nos e revelou que mediante a leitura que fez poderia fazer imediatamente o seu diagnóstico. Mas ela não compreendia como é que uma professora que se tinha apercebido das dificuldades do seu aluno, não tinha percebido ainda do que é que se tratava. Isto quereria significar que a professora ignorava o que era a Disléxia. Em todo o caso, ela ia ter uma entrevista com o meu filho e mais duas para lhe fazer uns testes.
0 dia do veredicto chegou finalmente. Gilles era um rapazinho inteligente, pois tinha uma idade mental de 11 anos, embora só tivesse 9. Mas os testes revelaram uma disléxia e uma disortografia que explicavam perfeitamente os maus resultados escolares. Se as suas perturbações tivessem sido descobertas logo que começou a aprendizagem da leitura, teriam sido suficientes alguns meses de
 reeducação para o libertarem dessas dificuldades. Mas, com esta dislexia descompensada, veio juntar-se-lhe uma disortografia e uma discalculia. Gilles estava profundamente atingido pelo seu insucesso escolar. Nos testes de personalidade, ele mostrava-se depressivo, muito inferiorizado pelos insucessos repetidos e com uma personalidade frágil. Tudo dependeria da qualidade de relações que se estabeleceriam entre ele e a pessoa que o reeducaria.
Travámos então conhecimento com a segunda fada, aquela que ia perseguir sem descanso a nossa Fada Má dos tempos modernos. A Dra. Delene, médica chefe dos serviços de ortofonia, especialista das perturbações da linguagem oral e escrita, era uma mulher ainda jovem, loura e
discretamente elegante. Dirigiu-se a Gilles como se ele fosse uma grande pessoa. Ela quase se desculpou de lhe ir fazer um pequeno ditado/teste, depois de ler um pequeno texto e reproduzir um desenho.
0 médico explicou-nos que a reprodução que Gilles tinha feito provava que tinha dificuldades maciças de orientação espacial. Uma criança orienta-se no espaço em relação ao
seu próprio corpo. Ora, se ele não consegue reconhecer, sentir no seu próprio corpo, o alto e o baixo, a direita e a esquerda (a isto se chama um mau esquema corporal), ele encontra-se desamparado em relação ao mundo exterior. Uma das consequências directas desta perturbação é uma péssima memória visual, Gilles estava igualmente mal lateralizado, com uma dominância do pé e da mão mal estabelecida. Não se podia pois afirmar que era verdadeiro canhoto. Uma coisa,
no entanto, era certa, é que o conjunto destas perturbações era suficiente para explicar a dislexia de
que era vítima.
0 meu marido pôs então a questão que me queimava os lábios: «Doutor, a dislexia, o que é exactamente?» A minha mulher e eu pensávamos que um disléxico era uma criança que se debatia com uma incapacidade para aprender a ler.Ora Gilles aprendeu a ler ... ». Mme. Delane reflectiu um instante depois falou: Explicou-nos que a dislexia, e suas sequelas - disortografia, discalculia, disgrafia, má lateralidade - tem por origem comum uma má integração das informações ao nível do cérebro. Simplificando, pode-se dizer que o cérebro recebe uma quantidade de informações
que chegam a um centro de selecções. Lá, agentes de ligação são encarregados de separar estas informações antes de as retransmitir aos seus destinatários. Se este agentes de ligação fazem mal o seu trabalho, se as retransmissões são mal asseguradas, resultam bloqueios, desordens, atrasos. Escolher entre «tapada» e «patada», «tir» e «tri», «ai» e «ia», «perceptor» e «preceptor» não
é sempre evidente para ele. Porque ler é compreender as palavras pela sua unidade fonética, as sílabas. Ora, as crianças disléxicas são muitas vezes muito inteligentes. Elas conseguem ultrapassar sozinhas o handicap da leitura.Elas inventam referências pessoais e dão a ilusão que lêem. Na realidade não fazem senão decifrar, e o esforço que fornecem para conseguir isso não lhes permite, além disso, compreender, discernir, fixar o que a sua boca pronunciou.
Enquanto que ela falava das crianças disléxicas em geral, Mme. Delane fazia uma descrição fiel do nosso filho. Rasgava esse véu de mistério e iluminava essa zona de sombra que nos tinha angustiado enormemente. A Fada Má estava identificada e existia felizmente uma arma para a combater. A REEDUCAÇÃO."

Disponível em Internet: http://trends.dts.cet.pt/users/jpaulo/dislexia/d_caso.htm
Capturado em 05 de abril de 2001.


Orientações Psicoafetivas: Aspectos psicoafetivos na dislexia.


( J.A.Serrano )
O Papel da Família

Os transtornos de aprendizagem - entre eles, a dislexia - não perturbam apenas a capacidade deleitora da criança, mas interferem em seu mundo relacional e afetam o funcionamento do sistema familiar.
O papel dos pais e da família na evolução de crianças que apresentam problemas neuropsicológicos e de aprendizagem foi estudado por diversos autores (Kaslow e Cooper, 1978; Amerikaner e Omizo, 1984; Werner, 1989). De acordo com estes dois últimos autores, as características do entorno psicossocial são um dos fatores mais importantes para prever a evolução dos transtornos. Sabe-se, por exemplo, que a expressão de uma predisposição genética depende muito da presença de um entorno facilitador, o que nos leva a ficar muito atentos ao funcionamento familiar e a fornecer-lhe toda a ajuda necessária para facilitar o desenvolvimento da criança ( Salyer, Holmstrom e Noshpitz, 1991) e as capacidades educativas dos pais.
Toda criança, sobretudo se foi desejada, destina-se a realizar os sonhos e o futuro do adulto. Sua missão é a de " consertar o fracasso dos pais " e "realizar seus sonhos perdidos" ( Mannoni, 1967 ). As dificuldades escolares de uma criança, sobretudo em famílias que investem neste aspecto da vida, provocam "surpresa e consternação, desgosto, incredulidade e cólera, e sempre um sentimento de ferimento narcisista " ( Kaslow e Cooper, 1978 ). A decepção e mesmo a culpa vivida pelos pais - luto pela criança imaginada - diminui sua capacidade de enfrentar positivamente os problemas de seu fulho. Eles podem não aceitá-los ou negá-los, exigindo desempenhos impossíveis da criança ou desinteressando-se da escolaridade.
segundo Mannoni ( 1964 ), "o disléxico está em conflito mais ou menos aberto com os seus, não 'se admite' seu infortúnio ( muitas vezes, a mãe é tipo histérica ) ". Kaslow ( 1979 ) sugere que as mães mostram-se excessivamente próximas de seus filhos, enquanto os pais parecem distraídos e distantes. Para outros autores, a mãe seria excessivamente autoritária e controladora ( Humphries e Bauman, 1988 ), errática, pouco preocupada e mesmo indiferente ( Werner e Smith, 1979 ) ou pouco estimuladora ".
As famílias aparecem como menos coesas e mais caóticas ( Amerikaner e Omizo, 1984 ), pouco motivadas pela educação e com dificuldades econômicas ( Toro et al., 1990 ). A comunicação com os pais é bastante pobre ( Ditton, Green e Singer, 1987), e estes apóiam pouco os filhos, embora sejam controladores e favoreçam pouco sua autonomia ( Thompson et al., 1989 ). Diatkine (1963 ) afirma que "os disléxicos e os disortográficos graves geralmente são encontrados entre crianças com graves dificuldades de relacionamento ".
Nossa prórpia experiência confirma a dificuldade de descrever uma tipologia da famíllia da criança disléxica. Essa também é a conclusão de Amerikaner e Omizo ( 1984 ). Esses autores estudaram o tipo de interação existente nas famílias de crianças que apresentavam transtornos de aprendizagem. Essas famílias mostram um modelo de interação similar ao das famílias de crianças perturbadas emocionalmente. A adaptabilidade dessas famílias - ou seja, sua capacidade de modificar sua estrutura de poder, seus papéis e suas regras relacionais em função de exigências situacionais - é bastante caótica. A coesão familiar - isto é, as características dos vínculos emocionais e a autonomia dos membros - exprime-se diferentemente, de acordo com o parente estudado. Os pais parecem distantes ( indiferentes ), enquanto as mães estão excessivamente envolvidas ( " ligadas" ) ou separadas ( capazes de estabelecer uma certa distância ).
A avaliação das modalidades de funcionamento familiar é muito útil para orientar os pais em função de certos objetivos terapêuticos. Ziegler e Holden ( 1988 ) descreveram cinco " famílias-tipo", confrontadas com crianças que apresentavam transtornos de aprendizagem: sadia, frágil, desorganizada, rejeitadora e dividida. Segundo esses autores, a cada tipo de família corresponde um certo esquema terapêutico.
A família sadia caracteriza-se pela estabilidade emocional e por uma imagem equilibrada de si mesma. Os pais possuem uma boa capacidade de insight, de verbalização e de comunicação. Por outro lado, as dificuldades da criança não desestabilizam a família e nem são utilizadas secundariamente para resolver conflitos internos.
A família frágil caracteriza-se por uma comunicação restrita no seio do círculo familiar e por um menor interesse pela escolaridade. Os pais têm baixa auto-estima e pouca capacidade de insight embora sejam capazes de gerenciar o comportamento de seu filho, porém essa capacidade é inconstante porque eles tendem a ceder muito facilmente.
A família desorganizada, também chamada de família com problemas múltiplos, caracteriza-se pela ausência de estruturas claras e bem definidas. A desorganização dessas famílias torna difícil sua abordagem terapêutica.
A famíla rejeitadora considera que o filho é "responsável " por todas as dificuldades que enfrenta. A criança é culpada constantemente, o que aumenta o sofrimento e sua baixa auto-estima.
A família dividida é aquela em que os pais estão separados ou se divorciaram. Com frequência, o problema da criança é integrado aos conflitos dos pais, que tendem a se desqualificar mutuamente e a atribuir ao outro a responsabilidade pela situação. Pode-se viver então um estado de "racismo familiar", negativo para a criança.
 

Hout, Anne Van -  Dislexias: descrição, avaliação, explicação, tratamento - ArtMed, Porto Alegre,  2001.


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